quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Dica cultural (?)

Essa é curtinha:

Assista a todos os documentários do Roger Moore. Já assistiu? Ótimo. Revolte-se contra o imperialismo norte-americano e Bush e suas mentiras satânicas. Acalme-se um pouco.

Acalmou?

Agora assista "Fabricando Polêmica" de Rick Caine e Debbie Melnyk e tire suas próprias conclusões. Depois se quiser, comente comigo.

Obrigado

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Divagação: paquidermes e caminhos

Caro leitor. Peço sua atenção para a história que vou lhe contar. Antes de tudo, sugiro uma canção para acompanhar. Dê play em “Strawberry Fields Forever”. Ouça as notas iniciais e deixe a melodia te guiar daqui pra frente.

O jovem que temos sentado à beira d’água esteve caminhando há um bom tempo. Ele sente que esse é o caminho correto, com certeza. Mas continua sem saber onde vai dar. Olhando o reflexo do sol na água, ele fecha os olhos. E ele hesita...

(Faço uma pausa aqui pra que você preste atenção nesse trecho da música que indiquei:
“Living is easy with eyes closed
Misunderstanding all you see
Its getting hard to be someone, but it all works out
It doesnt matter much to me”
Agora voltemos à história)

Após os momentos de incerteza ele reabre os olhos. Por um instante, ele vê o seu futuro na água.

E olhando pro futuro, lembra-se do passado. Dos que o acompanharam, que se perderam no meio do caminho. Lembra-se de uma, que o concedeu a força pra continuar por algum tempo, em corpo presente. E agora ela o encoraja de longe, talvez sem nem saber que assim o faz. Talvez ela esqueceu, quem sabe? Confuso, ele volta a caminhar.

Após algum tempo depara-se com uma grande montanha. Tenso, olha em direção ao cume e suspira... tem uma subida difícil pela frente.
No meio da subida, o corpo amolece, a cabeça gira. Ele teme que sua jornada esteja ameaçada. Cai de joelhos no chão de terra e pedra. Quando ajoelhado, chora lembrando do que passara. (veja, caro leitor, que o nosso herói comete um erro comum a todos nessa situação. Desesperado, ele não pensa em alternativas pra seguir o caminho. Somente lamenta.)

Mas veja! A sorte sorri novamente para o nosso sofrido protagonista. Aos poucos, uma manada de homens elefantes se aproxima do rapaz. Tomados de compaixão pelo estranho decomposto em lágrimas, o levantam e carregam-no no colo sem dizer uma palavra. Abismado, assustado, extasiado, aliviado, o jovem desmaia nos braços dos homens elefantes.

(Creio nesse instante que a música já tenha terminado. Peço então que coloque “The Fool on the Hill” pra tocar.)

Ao acordar, o bravo caminhante se depara com uma das visões mais lindas que já viu. Perceba mais uma vez os olhos marejados. Desta vez, são as lágrimas do dever cumprido. Ele está no topo da montanha. Os homens elefantes ainda estão ao seu lado, sorridentes. Ele agradece muito e dá alguns passos em direção à beira do penhasco que se apresenta à sua frente. Ele agacha e se coloca numa posição confortável... Seus olhos buscam o horizonte. Sua alma, o infinito.
De um lado, ele vê todo o caminho que percorreu até aqui. Do outro, tudo o que ainda tem pela frente. Ele passa o dia inteiro olhando maravilhado toda a beleza da Criação. Ao entardecer, os homens elefantes se reaproximam e põe as mãos (patas?) em seus ombros, como que dizendo: “- Vai em frente, garoto. Você chega lá. Estamos contigo nessa!”. A noite cai.Nessa hora você deve ouvir “Here Comes the Sun”


Depois de acampar durante a noite no cume da montanha, o guerreiro desperta revigorado no dia seguinte. Ele está sozinho novamente, mas se sente acompanhado pela garra e vontade dos paquidermes que o salvaram na noite anterior. O ar fresco enche o seu pulmão de vida e ele dá o primeiro passo pro resto de sua caminhada. Seus passos seguintes são seguros, decididos, já que a cada metro vencido, a cada desilusão esquecida, a cada montanha ultrapassada, ele relembra as palavras amigas dos homens elefantes. Pois ele carrega no peito a promessa feita de que eles sempre estarão por lá.

E os elefantes nunca esquecem.
*O meu agradecimento a todos os homens (e mulheres) elefantes que me levam a subir montanhas por aí
** Fotos minhas (com exceção Foto 2 de Márcio Brigo e foto 5 que não me recordo de quem é)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Sobre o Espiritismo

Recebi esse e-mail da minha mãe, esclarecendo alguns pontos que para os estudantes do espiritismo são bem conhecidos, mas que para muitos, não são claros o suficiente. O texto é de Alamar Régis de Carvalho, da Rede Visão.

"Santos, SP, 06 de outubro de 2008.



De: Alamar Régis Carvalho

Para: Jornalistas em Geral

Toda a Imprensa Brasileira


Senhores Jornalistas:


Partindo do princípio que o objetivo de todo jornalista ético e sensato é o de informar bem, com coerência, honestidade, dignidade e imparcialidade, preocupando-se sempre com o indispensável conhecimento da causa que leva a reportar, venho apresentar-lhes uma contribuição em cima de um assunto que muitos profissionais do jornalismo, embora bem intencionados, terminam cometendo equívocos lamentáveis, por uma inexplicável ignorância que compromete os seus nomes bem como o dos veículos por onde vinculam as suas matérias ou reportagens.

Falo com respeito ao assunto Espiritismo, tema este que invariavelmente é visto apenas no campo religioso, mas que na verdade não é, e sobretudo, o que é mais lamentável, sempre enfocado com afirmativas de conceitos absurdos, oriundos do "achismo" e também de uma cultura criada na cabeça das pessoas, pela intolerância e a desonestidade religiosa.

Não objetivo aqui defender crença ou fé nenhuma, porque não é isto que está em questão. Só quero mesmo prestar contribuição ao gigantesco segmento honesto do jornalismo acerca de uma coisa, como ela realmente é, para que ele esteja melhor informado, sem a menor pretensão de querer fazer com que nenhum profissional o aceite, concorde com os seus postulados e, muito menos, se converta.

Não aceitar o Espiritismo é um direito inquestionável que todos tem, já que os variados níveis de visões e concepções das pessoas devem ser respeitados, mas denegrir o seu nome, tentar vinculá-lo a coisas que nada tem a ver com ele e julgá-lo com base em "achismo", é algo que expõe à pessoa ao campo da leviandade e do ridículo.



Vamos aos assuntos:


Espiritismo não é igreja

Em princípio corrijam a conceituação inicial, porque o Espiritismo não é simplesmente religião. Ele não veio ao mundo com objetivo nenhum de ser religião. Trata-se de uma doutrina filosófica, com base calcada na racionalidade, na lógica e na razão, apenas com conseqüências religiosas, haja vista que os seus adeptos ficam livres da submissão a qualquer religião, por não serem obrigados a coisa nenhuma e nem serem proibidos de nada. Há centros espíritas que se portam como se fossem igrejas, mas isto é produto da concepção equivocada dos seus dirigentes, que ainda sentem a necessidade da rezação, em que pese o Espiritismo ser algo muito acima disto..

O movimento espírita não é constituído por pessoas perfeitas e, entre os seus adeptos, há pessoas que se empolgaram, estudaram pouco, o entenderam como igreja, fundaram um centro, já que existe liberdade para tal (o que não acontece no meio católico, já que ninguém pode fundar uma igreja a seu bel prazer) e fazem em "seu" centro espírita o que bem entendem, nem sempre em fidelidade total com a Doutrina. Exigem que pessoas se vistam de branco, entre várias coisas, e o limitam simplesmente a casas de rezações.



Não existe "Kardecismo", existe "Espiritismo"

O jornalista equivocado costuma utilizar-se da expressão "kardecismo", para identificar algo que ele imagina ser uma "ramificação" do Espiritismo, achando que Espiritismo é um "montão de coisas" que existe por aí, quando na realidade não é.

A palavra "Espiritismo" foi criada, ou inventada, como queiram, pelo senhor Allan Kardec, exclusivamente, para denominar a doutrina nova que foi trazida ao mundo, por iniciativa de Espíritos, e não dele, e que tem os seus postulados próprios.

Portanto, qualquer crença ou prática religiosa que utiliza-se da denominação "Espiritismo", fora desta que se enquadra nos seus postulados, está utilizando-se indevidamente de uma denominação, mergulhando no campo da fraude. Daí a verdade que o nome disto que vocês chamam de "kardecismo", verdadeiramente se chama "Espiritismo".

Não existe "Espiritismo Kardecista", "Alto Espiritismo", "Baixo Espiritismo", "Espiritismo de Elite", "Espiritismo Mesa Branca", "Espiritismo de sétimo dia", "Espiritismo Afro"... nada disto, só existe um.

Apenas para clarear o campo de conhecimento dos que ainda têm dúvidas, em achar que Candomblé, Cartomancia, Necromancia, Umbanda e outras práticas espiritualistas são Espiritismo, vai aqui uma pequena tabela, exemplificando algumas práticas de alguns segmentos, para apreciação daqueles que consideram relevante o uso da inteligência e do bom senso, a fim de um discernimento mais coerente e responsável.

Veja quem adota e quem não adota o quê.


Como pode, então, um profissional que tem a obrigação de estar bem informado, poder afirmar que Espiritismo e Umbanda são a mesma coisa? Não seria mais coerente dizer que tem mais semelhanças com o Catolicismo, embora não sejam também a mesma coisa?

O espírita não tem a menor pretensão de diminuir ou desvalorizar o adepto da Umbanda que, por sua vez, tem também a sua denominação própria que é Umbanda, e não Espiritismo, apenas quer deixar claro que Espiritismo é Espiritismo e Umbanda é Umbanda, assim como Catolicismo é Catolicismo, Protestantismo é Protestantismo.

A afirmativa que alguns fazem, em dizer que tudo é a mesma coisa, com a diferença de que na Umbanda se reúnem negros e pobres e no tal "Kardecismo" se reúnem o que chamam de elites, é extremamente leviana, desonesta e irresponsável. O Espiritismo não faz qualquer discriminação de raças, cor ou padrão social, já que em seu movimento existem inúmeros negros, mulatos, brancos e pessoas de todas as etnias.

E tem outra informação: Na Umbanda, que também é respeitável, ao contrário do que muitos imaginam, existem inúmeras pessoas da classe chamada elite, e como existe.



Allan Kardec não inventou o Espiritismo

Allan Kardec não inventou, ou criou, Espiritismo nenhum. A proposta veio de Espíritos, através de manifestações espontâneas, consideradas como fenômenos, na época, e ele, que nada tinha a ver com aquilo, foi convidado por alguns amigos para examinar e analisar os tais fenômenos, em suas casas, oportunidade em que foi convidado, pelos Espíritos, pela sua condição de pedagogo e educador criterioso, a organizar aqueles ensinamentos em livros e disponibilizar para a humanidade.

Como Professor Denizard Rivai, não era um professorzinho qualquer, era um Mestre com profundos conhecimentos em Matemática, Física, Química, Biologia, Astronomia, possuidor de vasta Cultura Geral, tendo inclusive feito todos os cursos de Medicina da época, em que pese não ter se formado médico. Famoso na Europa da época, como um dos mais notáveis autores de livros didáticos.

Ele foi tão honesto e consciente de que a obra espírita não era de sua autoria, que evitou colocar o seu nome famoso (Denizard Rivail) como autor dos livros e preferiu utilizar-se de um pseudônimo. É bom que se saiba que tudo o que aparecia com seu nome, vendia muito, não apenas na França como em toda a Europa. Ele queria que a obra se vendesse pelo seu conteúdo e não pelo nome famoso de quem o assinava.

Atentem para o detalhe: Os Espíritos optaram por um pedagogo, um professor, e não por um padre, um religioso, o que nos convida a entender que o Espiritismo é escola e não igreja.


Sobre a reencarnação

Não é patrimônio exclusivo do Espiritismo e não foi inventada pelo Espiritismo, posto que é algo conhecido pela maior parte da humanidade, por milênios, muito antes do Espiritismo, que tem apenas 151 anos de idade. (Estamos em 2008 e o Espiritismo data de 1857).

O espírita, depois de estudar a reencarnação, não crê na reencarnação, ele passa a SABER a reencarnação, o que é diferente. Exemplificando: Você crê que a Lua existe ou você sabe que ela existe? Afinal, você pode vê-la e comprovar, inclusive cientificamente. É isto aí.

Portanto a afirmativa de que os espíritas crêem na reencarnação é infantil e sem sentido.


Crença no sobrenatural

Espírita não crê em nada sobrenatural, tudo que ele crê é absolutamente natural. Pode ser sobrenatural para quem não conhece, por nunca ter estudado aquilo que ele estuda. Quando o velho bandeirante colocou fogo em álcool, conforme conta a História do Brasil, os índios achavam aquilo sobrenatural, porque não conheciam o álcool. Quem nunca viu um controle remoto, talvez ache sobrenatural alguém ligar e desligar um televisor com ele, sem ver fio nenhum.



Sobre a mediunidade

Também não é patrimônio exclusivo e nem foi inventada pelo Espiritismo. É uma faculdade humana normal e independe de crença religiosa, já que a pessoa pode possuí-la, com maior ou menor intensidade, acredite ou não. O Espiritismo apenas se dispõe a estudá-la, educar e disciplinar as pessoas que a possuem, para que o seu uso seja benéfico para elas e para os outros, absolutamente dentro dos elementares padrões de moralidade. Segundo os postulados espíritas ela não deve ser comercializada, nunca, e deve ser utilizada gratuitamente. Todavia é praticada comercialmente em alguns lugares do mundo, profissionalmente, por pessoas que são médiuns, inclusive honestas, mas nada sabem sobre Espiritismo, numa comprovação de que ela existe fora do meio espírita.

Qualquer afirmativa do tipo que "alguém tem mediunidade e precisa desenvolver" é vinda de pessoas inconseqüentes, mesmo algumas que se auto rotulam espíritas, posto que o Espiritismo propõe que a faculdade deva ser educada e não simplesmente desenvolvida.


Sobre o caráter do centro espírita

É um local que deve atuar como escola e não como igreja. A sua proposta é de estudos, sobretudo da matéria que trata da reforma íntima das pessoas, dando ciência do papel de cada um de nós na terra, da nossa razão de existir enquanto criaturas úteis ao nosso próximo, esclarecimento da nossa condição espiritual no presente e no futuro e, principalmente, a nossa conduta moral.

Recomenda a prática da Caridade, sim, mas de forma ampla no sentido de orientar e informar aos outros sobre os meios de libertações dos conflitos, das amarguras, das incompreensões e do sofrimento em si e não esse entendimento estreito de que Caridade se resume apenas a dar prato de sopa ou roupas usadas para pobres, para qualificar o doador como bonzinho.

Por exemplo: Prestar orientações a mulheres, mesmo ricas, para que elas se conscientizem para deixarem de ser chantagistas, neuróticas e agressivas para com seus entes mais próximos e com as outras pessoas, e mostrar a homens machistas que não devem se portar como animais em relação às suas esposas e aos seus filhos, na maioria das vezes é muito mais Caridade do que dar um prato de sopa a um mendigo que, seis horas depois estará com a mesma fome.

O Espiritismo adota Jesus, sim, inclusive como o maior modelo e guia que temos para seguir, concebendo o seu Evangelho como a bula coerente a nos conduzir, e não como sendo ele o próprio Deus.

Enfim. O centro espírita é um local de estudo e não de rezação.



Espíritas não andam consultando mortos

Muitos dos jornalistas escrevem o que imaginam, afirmando que os espíritas vivem se reunindo em volta de uma mesa... branca... e consultando "mortos", o que não é verdade. Espírita nenhum anda consultando mortos, porque essa expressão "consulta" não faz parte da prática espírita. Nos momentos em que há reuniões mediúnicas, os espíritos que estão na condição de desencarnados são tratados da mesma forma que qualquer um ali encarnado, sem que sejam considerados criaturas especiais, santas, possuidoras de altos conhecimentos ou superiores a quem quer que seja, a ponto dos participantes da reunião os consultarem para alguma coisa.



Espíritos não dão ordens e nem determinam nada

Imaginam, também, que os espíritas se relacionam com espíritos, como se eles fossem santos ou deuses, que dizem, está dito e tem que ser obedecidos, sem questionamentos. Não existe nada disto. Em princípio espírito nenhum se atreve a dar ordens e nem impor coisa alguma, em reunião espírita, porque sabem que, se isto acontecer, certamente serão chamados àtenção, assim como qualquer pessoa presunçosa que se acha no direito de dar ordens para os outros. Os espíritos que são considerados de elevado nível quando se manifestam sobre algum assunto, geralmente, por terem educação, colocam as suas argumentações em nível de sugestões, para que as pessoas analisem, examinem e avaliem sob todos os critérios de bom senso as suas opiniões, ficando livres para acatarem ou não.

Caso algum espírito, utilize-se do nome que quiser para se identificar, até mesmo do de Jesus, mas venha a dizer alguma bobagem, vai receber o mesmo tipo de reação que receberia qualquer encarnado quando diz besteiras, do tipo "vá cantar em outra freguesia".


Doutores Fritz e operações espirituais

Toda vez que fenômenos desse tipo surgem em algum lugar, sempre a imprensa os vincula com o Espiritismo. Não tem sentido, posto que a mediunidade, conforme foi dito, não é patrimônio exclusivo do Espiritismo, uma vez que espíritos quando querem agir, para fazerem o mal e, também, praticarem o bem, não escolhem pessoas por religião. Eles falam em igrejas protestantes, onde são tratados como demônios ou espíritos santos, aparecem para católicos onde, quando são bons, geralmente são entendidos como sendo a "virgem" Maria. Eles aparecem em reuniões muçulmanas, budistas e até para ateus.

Saibam que no Espiritismo há, também, operações espirituais, inclusive cirurgias, porém sem necessidade de cortar ninguém com instrumentos materiais e muito menos atuar em confronto com o Conselho Regional de Medicina. Se os espíritos, que se apresentam como Doutores Fritz, optam por cortar pessoas, utilizarem-se de facas sem esterilização e até mesmo cuspirem na faca ou passá-la na sola do sapato, isto é deliberação deles, dentro do seu livre arbítrio, mas o Espiritismo não tem nada a ver com isto. Cortam as pessoas sem que elas sintam dores, sim, fazem cortes profundos sem hemorragias, sim, e até curam, comprovadamente, mas são práticas apenas mediúnicas, não necessariamente espíritas.



Sobre quem é reencarnação de quem

Recentemente vimos um jornalista afirmar, nas páginas da VEJA, que os espíritas juram que Fulano é reencarnação de Ciclano, o que se constitui em um absurdo. Em princípio espírita não adota jura nenhuma. Segundo, que não consta da atividade espírita a preocupação de quem é reencarnação de quem, uma vez que esta discussão é irrelevante, não tem razão nenhuma, não acrescenta absolutamente nada na proposta espírita para a criatura humana, em que pese alguns espíritas, apenas alguns, (nem todos entendem bem a proposta da doutrina) se ocuparem com esse tipo de discussão.

Falar em quem é ou talvez possa ser reencarnação de quem, é conversa amena de momentos de descontração de espíritas, apenas em nível de curiosidade ou especulação, jamais tema de estudo sério da casa espírita.

Ainda que possa existir, em alguns locais de estudos mais profundos e pesquisas espíritas, interesses em trabalhar as questões da reencarnação, os estudiosos apenas sugerem que fulano possa ser a reencarnação de alguém,mas nunca afirmam, apesar de evidências marcantes e inquestionáveis, quando a condução da pesquisa é séria e criteriosa.

Quem anda dizendo que é a reencarnação de reis, de rainhas e de personagens poderosas do passado não são os espíritas, são apenas alguns bobos que estão no Espiritismo sem consciência do seu papel.



Apologia ao sofrimento

Matérias de revistas e jornais, dentro deste equívoco que nos referimos, chegaram a afirmar, diversas vezes, que o Espiritismo ensina as pessoas a serem acomodadas em relação ao sofrimento e até chegarem a dizer que o sofrimento é bom.

Não condiz com o coerente ensinamento do Espiritismo.. Se algum espírita chega a dizer isto, certamente é vítima do masoquismo e, provavelmente, deve praticar um ritual em sua casa, quando, talvez uma vez por semana, colocar a mão sobre uma mesa e dar uma martelada em seu dedo.

Sofrimento não é condição fundamental para a evolução de ninguém, embora entendemos que, ao passar por ele, muitas pessoas terminam acordando para a realidade da vida e mudando de conduta, sobretudo no campo do orgulho, do egoísmo e da presunção.



Mesa branca

Não existe "Espiritismo Mesa Branca", "Alto Espiritismo", "Baixo Espiritismo" ou qualquer ramificação do Espiritismo, que é um só. O hábito de forrar mesas com toalhas de cor branca, na maioria dos centros espíritas, nada mais é que um hábito de alguns espíritas, de certa forma até equivocados também, uns talvez achando que a cor branca da toalha ou das roupas das pessoas tem algum significado virtuoso, quando na verdade não existe esta orientação no Espiritismo. Muito pelo contrário, seria preferível utilizar toalhas (por que tem sempre que ter toalhas nas mesas?) de outras cores, posto que tecidos em cor branca tem maior facilidade de sujar.

Portanto a citação de "espiritismo mesa branca" é mais uma expressão da ignorância popular, o que não se admite nos jornalistas, sobretudo em profissionais de imprensa respeitável.



Terapia de vidas passadas

Não é procedimento espírita, em que pese ser recomendável em alguns casos, porém em consultórios de profissionais especializados, geralmente psicólogos ou médicos. É fato, existe, é comprovado, tem resultados cientificamente respaldados, mas não é prática espírita.



Cromoterapia, piramidologia etc...

Se alguém usa uma dessas práticas no espaço físico de uma casa espírita, é por pura deliberação da direção da casa, que se considera livre para fazer o que quiser, até mesmo dar aulas de arte culinária, corte e costura, curso de inglês, informática ou o que quiser, que são atividades úteis, sem dúvidas. Mas não tem a ver diretamente com o Espiritismo.



Sucessor de Chico Xavier

Isto nunca existiu no Espiritismo, em que pese vários jornalistas terem colocado em matérias diversas, quando o Chico Xavier "morreu", e ainda repetem, talvez querendo estabelecer alguma comparação do Espiritismo (que vêem apenas como religião) com a Igreja Católica, que tem sucessores dos papas, quando morrem. Chico Xavier nunca foi uma espécie de papa, de cardeal ou de qualquer autoridade eclesiástica dentro do movimento espírita.

Divaldo Pereira Franco nunca foi sucessor do Chico, nunca teve essa pretensão, ninguém no movimento espírita fala nisto, que é coisa apenas de páginas de revistas desinformadas sobre o que verdadeiramente é o Espiritismo.



A Igreja Católica condena o Espiritismo

Conversa fiada. Apenas um segmento da Igreja Católica condena, já que historicamente se acha no direito de exercer condenações. Condenaram Joana D'Arc, Galilleu, Giordano Bruno, condenam o Protestantismo, a Maçonaria, o Budismo e condenaram até mesmo Dom Hélder Câmara, um dos nomes mais ilustres do seu próprio seio. Mas esta não é a realidade de todos os católicos, inclusive do falecido Papa João Paulo II. No Brasil vocês podem consultar o Padre Médium, Miguel Fernandes Martins, de Brasília, cujo telefone é (61) 3591-6916 ou 9975-4907, o Bispo Médium Dom Ismael Nunes, de Santa Catarina, telefone (48) 3334-9597 e 9960-9699, o Arcebispo de João Pessoa na Paraíba, Dom Aldo de Cillo Pagotto, o Deputado Federal Padre José Linhares, homem de 8 cursos superiores, poliglota e Presidente Mundial da Associação das Santas Casas de Misericórdia, além de quase duzentos outros, vários bispos e mais de mil freiras que eu tenho como amigos em minha relação, em contatos constantes.

A maioria dos padres e bispos não condena o Espiritismo.



A sua relação com a Ciência

Faz parte da formação espírita a seguinte recomendação: "Se algum dia a Ciência comprovar que o Espiritismo está errado em algum ponto, cumpre aos espíritas abandonarem imediatamente o ponto equivocado e seguirem a orientação da Ciência".

Mas isto não quer dizer que o que afirmam determinadas criaturas, como o padre Quevedo, que se apresenta presunçosamente como cientista, deva ser entendido como Ciência, já que ele não é unanimidade e nem ao menos aceito pela maioria dos cientistas coisa nenhuma. Ele é padre, nada mais do que padre, ainda mais jesuíta, com um tipo de postura que não é aceita nem pela maioria do seio católico, quanto mais pelo científico.

Alguém da imprensa já viu o padre Quevedo ser convidado para grandes eventos católicos no Brasil? como, por exemplo, as visitas dos Papas, as celebrações de Aparecida, do Círio de Nazaré, etc? Quantos católicos já o viram, pelo menos, de batina? Por que a imprensa o valoriza tanto?

Há homens, que se dizem cientistas, que chegam ao ridículo e a um nível de presunção a tal ponto de afirmarem que não há vida fora da Terra, quando o bom senso sabe que é impossível, ainda, ao homem, de qualquer nível de estudo, saber o que há e o que não há em todos os planetas e estrelas das mais de 200 bilhões de galáxias conhecidas.

Não é à pseudo-ciência ou a opiniões pessoais de um ou outro elemento, que se diz de Ciência, que o Espiritismo se submete, com esta recomendação. Ele se submete é à Ciência, como um todo, em descobertas inquestionáveis.

Até agora a Ciência não conseguiu apontar e muito menos comprovar erro em um ensinamento espírita, sequer.

Se alguém exige, por exemplo, querer provas por parte dos que afirmam que existe vida fora da Terra; por questão de bom senso deve ter também provas de que não existe. Será que tem?



Medicina e Espiritualidade

Alguns médicos, tradicionalmente, sempre afirmaram que os problemas de saúde das pessoas nada tinham a ver com causas espirituais, qualificando-os simplesmente como crendices. Hoje existe um curso de "Medicina e Espiritualidade", oficial, dentro da USP (Universidade de São Paulo), a maior Universidade do País, onde são estudados estes questionamentos que alguns continuam a dizer que são crendices. Como informação, sugerimos que os jornalistas se interessem em reportar sobre este assunto, sem que vá aqui a menor intenção de querer converter ninguém. Não se trata de questão religiosa, trata-se de questão científica. Para melhor informação, as aulas deste curso podem ser vistas no site: www.redevisao.net. O telefone da "Pineal Mind", onde são ministradas as aulas, é (11) 3209-5531 e o e-mail é faleconosco@uniespirito.com.br onde poderão ser obtidas maiores informações sobre o curso. Toda sexta-feira, às 19 horas, tem aula ao vivo, pelo citado site, numa WebTv e algumas aulas passadas podem ser vistas no mesmo site a qualquer hora.



Federação Espírita Brasileira não é Vaticano do Espiritismo

Algumas pessoas a vêem praticamente assim, mas a sua finalidade nada tem a ver com isto. Ela é apenas uma casa que se propõe a coordenar e sugerir o movimento espírita brasileiro e não o mundial, quanto a melhor conduta espírita, com casas federativas constituídas em cada Estado, sem impor nada, sem determinar coisa alguma, já que todas têm autonomia total em todos os sentidos, obviamente dentro dos mesmos postulados que são únicos, porque o Espiritismo é único e não tem subdivisões. A instituição que exerce o mesmo papel, em nível mundial, é o Conselho Espírita Internacional, que também não é Vaticano Espírita e não determina, proíbe, obriga nem impõe nada a ninguém.



Sobre a opção religiosa de alguns espíritas

Não há nada contra, inclusive há definições do Espiritismo em um tríplice aspecto: Filosofia, Ciência e Religião. Muitos espíritas se apegam mais ao aspecto religioso, é natural a prece, no Centro Espírita e nas próprias casas dos espíritas, há reconhecimento da eficácia da prece, não apenas pelos espíritas mas até mesmo pela Ciência, existe a recomendação da prática da Caridade, Perdão, Indulgência, Humildade, Fraternidade, Beneficência, Tolerância e todos esses valores elevados que são sugeridos aos homens e que, naturalmente, as pessoas vinculam com valores religiosos. Mas é bom que se entenda que as pessoas poder ser honestas, dignas, corretas, caridosas, humildes, etc... fora do ambiente religioso, já que moralidade não tem necessariamente a ver com religião. Existem, inclusive, ateus providos dos mais elevados níveis de moralidade e decência.



Diante de todo o exposto sugerimos que os grandes veículos de comunicação de massa, obviamente comprometidos com a credibilidade dos seus nomes, repassem estes esclarecimentos aos seus profissionais de jornalismo, não necessariamente para que eles sejam simpáticos à idéia espírita, já que ninguém é obrigado a aceitar coisa nenhuma, mas para, pelo menos, não comprometerem as suas honorabilidades dizendo mentiras, leviandades e até se expondo ao ridículo reportando sobre um assunto que não entendem.


Abração.



Alamar Régis Carvalho

Analista de Sistemas e Escritor

alamar@redevisao.net

www.redevisao.net

www.alamar.biz

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Wedding Bells Are Breaking Up That Old Gang of Mine


Not a soul down on the corner,
That's a pretty certain sign,
That wedding bells are breaking up that old gang of mine.
All the boys are singing love songs,
They forgot "Sweet Adeline,"
Those wedding bells are breaking up that old gang of mine.
There goes Jack, there goes Jim,
Down to lover's lane.
Now and then we meet again,
But they don't seem the same.
Gee, I get a lonesome feeling,
When I hear those church bells chime,
Those wedding bells are breaking up that old gang of mine.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Caminhada

- Ei, amigo! Por que caminhas tão rápido.
- Pois tenho pressa em chegar.

- E para onde vais?
- Ainda não sei.

- Mas então por que tens pressa?
- Pra saber pra onde vou.

- Não entendo. Caminhas pra um rumo incerto, e ainda assim pareces tão convicto.
- Não estou convicto, somente caminho.

- Se não tens certeza, por que vais?
- Pois muito e muitos me esperam lá.

- E como sabes que vai chegar?
- Não sei.

- Perdoe-me, mas para mim, perdeste a razão.
- Provavelmente.

- Incomoda-te se eu caminhar contigo?

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Brilho eterno de uma mente sem cheia de lembranças

Ê saudade
Aquela de estar aqui, às 3 da tarde de plena quarta-feira.
Das reuniões de sexta à tarde, assistindo filme, pra depois fazer zuada como doidos. Como jovens.
Dos passeios sem rumo na Paulista. Dos passeios paulistanos sem rumo.
Das sessões musicais, regadas à base de amizade e descontração.

Ê saudade
Aquela de não estar aqui, às 11 da noite de uma quinta-feira.
Das partidas históricas no Bola 7. Com uniforme da escola e tudo.
Das bebedeiras históricas em fins de semana a la Woodstock na Vila Oliveira.
Das conversas sem fim, varando madrugadas. De varar madrugadas procurando o fim de uma conversa.

Ê saudade
Aquela de ficar na rodinha falando mal de todos, e bem de todas.
Das Tchulas. Das redações. Dos torneios de Jan-Ken-Po. Das modinhas itinerantes.
Das brigas. Das discussões. Das controvérsias. Das intrigas
Das risadas. Dos conselhos. Da união. Da camaradagem.

Ê saudade
Aquela de não se sentir responsável por tudo que dá errado na vida.
De acordar por acordar. Sem querer mesmo.
De descansar por descansar. Querendo por querer.
De não planejar o fim de semana, o meio da semana, o início da semana

Ê saudade
Aquela que bate quando menos se espera.
Das coisas pequenas que engrandeceram.
Das coisas grandes que agora não fazem tanta diferença.
De poder ser eu mesmo. Só pra variar.

É, saudade.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Último episódio

O texto abaixo é o último episódio da atual série de histórias do Pastor. A partir de agora essas histórias terão endereço próprio em Contos de Mercury City onde o Pastor se junta à Loira Suicida, o Detetive Azul e um ilusionista misterioso em uma cidade tomada pela corrupção. Aguardem!

O Pastor em - "Morte em pé"

* Continuação dos textos: "Calmaria" e "Uma visão"
Anteriormente: Após investigar a misteriosa mulher com a qual passara a noite, o Pastor chega a um misterioso galpão e cai em uma armadilha.

João 13:11 "Pois ele sabia quem o estava traindo; por isso disse: Nem todos estais limpos."

Acordo com a cabeça pesada. Algumas piscadas rápidas para tentar recobrar a visão. Ainda estou confuso. Passo lentamente na minha cabeça o filme do que aconteceu nos últimos dias. Imagens desconexas, nada faz sentido. Porém tudo só leva a um sentido. O traidor.

Olhos vazios me observam por trás e nem havia percebido. Não até agora.
- Elizabeth Valentino... vadia ordinária. O que você quer comigo?

Viro-me lentamente para observá-la sentada atrás de mim. Porém uma surpresa me salta aos olhos. Ela tem as mãos amarradas, assim como eu. O que Diabos...
- Calma Pastor! Eu não tenho nada a ver com isso, eu juro. - o desespero em sua voz me indica que ela fala a verdade, ou mente como ninguém. - Eles me usaram! Me usaram pra chegar até você! É tudo culpa dele!
Minha cabeça dói mais ainda. Passo a mão na nuca e minha mão volta coberta de sangue, que cobre um galo enorme.
- Penso que não sairemos daqui tão cedo, então é bom você me contar sua história direito. Ai veremos se eu acredito ou não.
O meu tom calmo parece acalmá-la também.
- Foi logo depois que meu pai, você deve conhecê-lo, Luca Valentino, foi preso.
- Dom Valentino. - Confirmo com um gesto de cabeça.
- Isso. Há tempos não tinha mais contato com aquele maldito idiota. E logo depois de sua prisão, começaram a me perseguir pra onde eu ia. Assustada, até cheguei a pedir ajuda praquele detetive que prendeu meu pai.
- E no quê isso te ajudou? - disse com desdém, conhecendo o tipo a quem ela se referia.
- Ele descobriu quem era. Um tal de John Steinberg.

Minha garganta seca. Esse nome. Não pode ser. Não em Mercury City. John "o corpo" Steinberg. Johnny Steinberg. Chame como quiser. Steinberg era o rei do crime em Plant Town, a cidade que fica a Oeste de Mercury City. Quando a cidade se modernizou, toda a corporação da polícia e todos os políticos tiveram suas fichas passadas a limpo. Muitos corruptos fugiram por conta própria, outros estão presos até hoje. Fato é que Plant Town chegou a uma taxa de crime quase zero. Fato é que o crime em Mercury City só cresceu. E agora mais essa. Johhny Steinberg entrando pra galeria de criminosos da cidade. Uma coisa que deve ser levada em conta. Quando Don Valentino comandava o crime, era só ele. Quando ele saiu de cena, o vácuo gerado atraiu tudo que é pilantra que podia atrair. Parabéns Detetive Azul. Imbecil.

- O que aconteceu depois disso? - perguntei, preocupado
- Logo depois de sair da Agência de Detetives, fui pega por uns encapuzados em um carro. Eles me trouxeram pra cá. Steinberg apareceu e mandou que eu fosse atrás de você e te seduzisse. Depois eu deveria fugir e você viria atrás. Chegaria até aqui. Até eles.
- E você topou assim? - faço um movimento rápido de fricção entre o polegar e o dedo médio
- Calma. É claro que não. Mas ele ja tinha pensado nessa hipótese. E então levou-me até outra sala do galpão e mostrou meu irmão pequeno. Prometeu que ia esquarteja-lo na minha frente - seus olhos enchiam de lágrimas. - Eu não podia fazer nada!
Agora Elizabeth chorava copiosamente. Não podia existir atriz tão boa. Com certeza era verdade.
- E eu então topei, desde que eles liberassem meu irmão. Eu fiz tudo direitinho, e quando voltei pra cá... - sua voz volta a embargar - eles tinham matado ele...
Remorso. Há quanto tempo estive contigo, não?
- Me desculpe. Creio que te julguei mal. Mas e quanto ao Quentin?
- Quentin Vega? Meu pai fazia apostas com ele. Muitas. Quando meu pai me expulsou de casa, Quentin me ajudou, com moradia, dinheiro. Meu pai descobriu. Trocou de agente, começou a apostar com aquele Ron Allen.
Outro nome que me dá ânsia. Ron "alicate" Allen. Bookie do centro e da zona Sul de Mercury City, tem muitos clientes poderosos, e muitos clientes ilegais. O apelido alicate vem do fato de ser sua ferramenta favorita para punir os inadimplentes.

Alguma coisa não encaixava. Quentin mentiu pra mim. Por quê? Confesso que as vezes sou menos inteligente do que gostaria. Não tenho tino para detetive, não sei analisar fatos, juntar pistas. Eu gosta da ação. A boa e velha ação. Por sorte Elizabeth é menos limitada do que eu.
- Eu tenho um plano.

Se aquele safado não me pagar hoje eu largo essa merda. Não tô sendo pago pra ficar de babá dessa piranha e desse assassino maluco. E por que eu que tenho de ficar aqui, todos lá fora jogando cartas. Mas eu, não. Alguém tem que vigiar os prisioneiros. Mas que diabos...
- Vagabunda! Eu vou te matar safada
- Ahhhh, não faz isso!!! Para! Para!
Ai cacete. Agora ferrou. Vou ter que entrar pra parar esse maluco.

A porta se abre, o plano funcionou. Rapidamente Elizabeth salta detrás da porta e o golpeia na cabeça. Ele deixa sua arma cair.
Um soco na cara, é o que basta pra ele cair pra trás. Com alguns chutes completo o serviço. Ele fica desacordado no chão. Eu tomo sua arma emprestada. Saímos rapidamente da sala e passamos por um corredor sujo que vai dar em uma sala de máquinas velhas e enferrujadas. No centro, iluminada por uma luz fraca, uma mesa. Ao redor da mesa, 5 capangas de Johnny Steiberg jogam cartas. É hora do show. Escondido atrás de uma máquina grande, consigo dar dois tiros certeiros antes dos outros três levantarem-se. Me deito e vou rastejando até outra das máquinas. Os três estão assustados, gritando para tentar me intimidar. Eles não conhecem o medo. Um deles tenta dar a volta por tras da maquina onde eu estava. Acerto- com um tiro na nuca. Só tenho mais duas balas. Dois homens. Corro rapidamente de trás da máquina e avanço em direção a eles, mas só vejo um. Atiro uma vez, entre os olhos e ele cai morto. Porém novamente deixei a ação dominar meus instintos e não percebo a minha burrice. Por trás de mim o capanga restante avança ferozmente e acerta uma facada. A sorte foi que ainda consigo desviar o mínimo para impedir que a faca me acerte o pescoço e ela se enterra em meu ombro. Eu caio no chão, ele retira a faca e antes que possa acertar outro golpe, Elizabeth o acerta com um tiro no ouvido. Ela caminha em direção a ele e dá mais três disparos. Seus olhos voltam a brilhar, cheios de lágrimas.

Nada pode explicar o que sinto agora. Fúria. Ressentimento. Decepção. Dor fulminante. Meu braço aparenta estar caindo do ombro. Vou cambaleando com Elizabeth até um dos carros parados no interior do galpão e peço pra ela dirigir até o Hot Space, antes disso, algo me chama a atenção em cima de uma mesa. Pego com pressa, ponho no meu sobretudo e entro no carro. O acerto de contas começa agora. O traidor vai pagar.

Chegamos rapidamente à frente do Brady's. Ao entrar peço para todos saírem, inclusive o Sr. Bulsara. Tranco a porta. Só

Quentin e Sammy ficam pra dentro. Puxo Quentin pelo colarinho até ele parar em minha frente. Peço a Sammy pra ficar ao meu lado. Volto-me para Quentin novamente. Com a arma apontada para seu rosto, vejo o medo em seu olhar.
-Apague a luz e conte-me uma história sobre a ruína de um homem, que eu te falarei sobre desejos sombrios e falsidade. Você me fala sobre suas ações , vontades e fraquezas e eu vou dizer como é o caminho a seguir. Só você sabe como o homem chegou ao fim, mas só eu sei como a história vai terminar.
Quentin gagueja mas começa a falar.
- Be-bem. Ela é como uma filha pra mim, Ray... Não podia arriscar seu bem-estar deixando-a entrar no seu mundo, no nosso mundo.
- Veja bem Quentin, nesse momento você não tem o controle nem de sua vida. Como queria ter controle da vida de outra pessoa, é muita pretensão, não acha?- enquanto falo, vou circulando ao redor de Quentin, que me olha assustado.
- O que você queria, hein Ray? Que eu te levasse até ela? Pra você matá-la sem perguntar por que? Não se resolve tudo na bala.
- Não queira me ensinar nada, seu tapado. Nada é o que parece. Acredite em mim. Hoje, tudo se resolve na bala. - aponto a arma pra cabeça de Quentin, que fecha os olhos. Elizabeth se desespera.
- Não faz isso, pastor! Ele não fez nada, não tem culpa de nada!- ela agarra o meu braço. Meu ombro dói como nunca. Com um movimento, a afasto o bastante para atirar.
- Hoje você morre, traidor.
Quentin fecha os olhos. O disparo ecoa pelo Brady's. O cheiro de pólvora toma o ambiente. Quentin estranha. Ele ouve o eco do tiro, sente o cheiro da pólvora. Alguma coisa está errada. Ao abrir o olho se depara com minha mão estendida em sua direção.
Ao olhar pro lado, enxerga o corpo de Sammy. Ele levanta-se rapidamente e vai até o corpo.
-Por que fez isso?
- É ele, Quentin. Sempre foi ele. Esse safado, me jogou contra você. Não preciso ser o cara mais inteligente pra perceber as más intenções desse idiota. E outra. No galpão, tive tempo de pegar isso sobre a mesa. - tiro do meu sobretudo uma foto. A mesma foto que Sammy mostrara pra mim mais cedo.
- Venha Pastor, vou te levar pro Hospital. - Diz Elizabeth.
- Esqueça, garota. Não piso em hospitais. Tenho meus próprios meios de cuidar desse probleminha. E antes de tudo vamos voltar ao Machines, esqueci algo.

Voltamos ao mesmo galpão de algumas horas antes. O cheiro de morte já havia tomado o local. Não preciso de muito tempo para encontrá-la. Lá está ela. Rita. Impávida, apesar da barbárie. Como sou incompleto sem você. Rita. Tomo-a em minhas mãos com todo o carinho, para depois deitá-la no coldre. Dou Uma última olhada em volta. O silêncio é mortal. Prometo que muitos se
juntarão a esses infelizes durante minha caçada. Johnny Steinberg não sabe aonde se meteu, e vai se arrepender disso. Eu prometo.

Salmo 91:7 "Mil poderão cair ao teu lado, e dez mil à tua direita; mas tu não serás atingido."

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O Pastor em - "Uma visão"

*continuação do texto Calmaria

Anteriormente: O Pastor estranha a falta de movimentação dos bandidos da cidade e resolve correr atrás de pistas. Quentin o desencoraja pedindo para ele relaxar. O Pastor então se envolve com uma morena misteriosa e os dois vão para um Motel.

Abajur
Teto
Travesseiro

Vagabunda.
Sabia que não era confiável. Por que diabos fui cair nessa armadilha. Que erro de imbecil. Com certeza ela já está voltando com uns 100 gorilas pra acabarem comigo. - olho no meu relógio, à mesa de cabeceira - 14 horas? Como ela levantou da cama sem eu perceber? Sem dúvida uma profissional, não no sentido sujo da palavra. Ou sim, sei lá. - Ouço passos na escada.


Vadia.
Por certo já chegaram. - visto-me rapidamente e saio pela janela à esquerda. O sol está rachando forte. Consigo subir pela placa do motel até o telhado. Lá, paro um segundo pra ordenar meus pensamentos. Olho ao longe, procurando a solução. O calor que sobe dos telhados distorce a visão. O bastante pra indicar que esse verão deverá ser dos mais quentes de Mercury City. Mais um motivo pra eu ter ficado em casa, longe desse inferno. Já com os pensamentos mais em ordem, dirijo-me até o beco de trás do Motel, descendo por uma velha escada de emergências. Obviamente, ela quebra quando estou no meio da descida, e me esborracho de costas em uma caçamba de lixo, obviamente. Volto à rua principal do Motel, não sem antes me certificar de que não havia nenhum carro ou pessoa suspeitos.

Segurança.
Vou rumo ao Norte, rumo ao Hot Space. O bairro mais podre da cidade. O meu bairro. Minha mente só pensa em uma coisa. Encontrar aquela mulher. Com certeza alguém no Brady's pode ter essa informação.
Ao chegar, paro um instante buscando por pessoas que pudessem me dar o que eu queria. A verdade é que nesse horário os vagabundos de Mercury City ainda estão dormindo. Só vejo alguns inúteis inofensivos. Talvez com o dono do bar, o Sr. Mustapha. Mustapha Ibrahim é um imigrante árabe que mudou-se para Mercury City há 25 anos. Foi testemunha da ruína completa e absoluta da cidade. Como um bom sobrevivente, se adaptou. Abriu o bar para atender os estivadores do Porto e assim começou a atrair as prostitutas, que atrairam toda a sorte de salafrários, que afastou os estivadores. Mas Mustapha pouco se importa com a clientela, prefere tentar viver. Á parte do nariz, adunco e um tanto avantajado, Mustapha não é aquele árabe que costumamos imaginar. Alto e muito forte, não aparenta os 50 e tantos anos que tem. Comumente vestido de forma muito simples, com uma calça velha de sarja e uma camisa larga de seda que sempre apresenta marcas de suor nas axilas e no peito. Ele se aproxima de mim, cordial.
- Como vai "a" senhor Pastor hoje? - diz, já me entregando um copo de conhaque
- Não, não, senhor Mustapha. Não vou tomar nada de momento. Vim atrás de uma informação.
- Mas claro. Sempre que Mustapha pode "ajuda" vai "ajuda". - Seu rosto toma uma feição de preocupação. Mustapha não gosta de se meter nos assuntos dos frequentadores do bar, porém considera ter uma dívida eterna comigo, de um dia que salvei sua filha de ser estuprada no beco atrás do Brady's. É também por esse motivo que nunca me deixa pagar por nada.
- O senhor lembra-se daquela morena com a qual saí daqui ontem?
- Mas sim, "aquele" "muita" bonita, não?
- Exato. Preciso de qualquer informação que o senhor possa ter.
- Mas veja bem. Mustapha não conhece "aquele" mulher. Não vem "muita" aqui. Já "viu" algumas vezes, mas está sempre "sozinho".

Porcaria.

Eu sei que é verdade. Mustapha não mente pra mim. E se ele não sabe, tampouco vou achar alguém aqui pra me ajudar.
- Grande Ray!
Ou sim.
Reconheço a voz rouca de Quentin atravessando a porta. Ele deixa o chapéu no mancebo ao lado da entrada e se dirige até mim. Sammy vem logo atrás.
- Caiu da cama, Ray? Achei que você ia ficar uns dois dias sem sair do quarto, hã? - Quentin dá uma encostada com o cotovelo na minha barriga, referindo-se àquela mulher. - Hey velho Mustapha, alguma mensagem pra mim no telefone?
Quentin atendia seus clientes diretamente do Brady's. Era bom pra ele, que não mantinha escritório fixo, e era bom para o bar, que mantinha o movimento intenso de apostadores, quase sempre ótimos bebedores.
- Pera ai Quentin dexa eu falar contigo rápido. Aquela mulher que saiu comigo. Você a conhece?
- Já a vi várias vezes, Ray. Mas não sei de nada além do nome, Elizabeth. - Quentin mostrava agora um certo desconforto. - Alguma coisa de errado?
- Tudo. Ela me largou em um Motel no Centro e voltou com uns capangas pra me pegar. Por sorte consegui escapar.
- Porra Ray, você tem certeza? Que merda, cara.
Achei muito estranho a exaltação de Quentin, porém relevei. Mas ao olhar para Sammy, percebo ele me fazendo um discreto sinal . Percebendo sua intenção, dou a deixa.
- Bom, qualquer coisa que acontecer me avise. Vou ver o que faço por enquanto.
Despeço-me de Mustapha e Quentin, e ao passar por Sammy dou um leve aceno com a cabeça que é facilmente entendido. Saio do bar e espero no beco ao lado. Alguns segundos depois, Sammy surge um tanto apressado.
- Senhor Pastor. Eu acho que o senhor deveria ver isso. - ele tira uma fotografia do bolso, a qual mostrava Quentin ao lado de uma mulher. Uma morena muito alta. Muito bonita. Elizabeth.

Filhos da puta.
Jogo a foto no chão e volto apressado ao bar. Quentin está falando ao telefone. Com um empurrão jogo-o para longe, ele tropeça e cai no chão aturdido.
-Calma Ray, qual o seu problema?
- Meu problema? Desgraçados como você! Esse é o meu problema. Só não gasto uma bala em você porque seria um desrespeito com Rita. Você não merece.
Levanto-o pelo colarinho e com um soco muito forte derrubo-o de novo.
- Pe-pera aí Ray, deixa eu explicar. - O sangue começa a escorrer de seu nariz.
- O Diabo, Quentin. Só me fala onde eu vou achá-la. Rápido.
- Não faça isso, cara, você não enten... - com um chute na cara, corto sua frase ao meio.
- Eu disse: Rápido!
- No Machines, cara. Ela trabalha em um galpão no Machines. O galpão da Aços Works. Mas eu te peço...
- Cala a boca, miserável. Se estiver mentindo, vou cortar cada pedacinho do seu corpo. E vou fazê-lo assistir a tudo.
Saio rapidamente pela porta e deixo Quentin sangrar. Mais tarde resolvo o que fazer com ele. Meu problema agora é outro. Dirijo-me a um taxi que está parado em frente ao porto e entro.
- Galpão da Aços Works, no Machines. Voando.

Rápido.
O táxi sai cantando pneu no asfalto quente da rua Innuendo rumo ao Machines. O Machines é um bairro vizinho ao Hot Space, onde se situava a gigante indústria Machines' World, que faliu após a prisão do dono da fábrica, Don Luca Valentino, que usava toda a estrutura que tinha em benefício do crime organizado. Após o fechamento da fábrica, todos os galpões foram revendidos entre pequenas indústrias, formando o bairro industrial que recebe o nome da antiga empresa, Machines.
O táxi chega logo ao destino, pago mais do que a corrida pedia, mas é um bônus pela rápida direção do motorista. Dou uma breve olhada ao redor procurando por algo supeito, mas está tudo calmo. Muito calmo. A porta principal do Galpão está entreaberta. Dou algumas batidas e entro. Um vigia se aproxima.
- Pois não?
- Vim encontrar alguém. A senhorita Elizabeth, sou um velho amigo.
- Elizabeth Valentino? - o vigia parece estranhar
Merda. Onde eu fui me meter. Não tinha mais como voltar atrás. Tento pegar Rita no coldre, porém o vigia se adianta e me acerta com um porrete. Desequilibrado caio para trás. Ele me dá mais uma cacetada. Minha visão fica turva. Antes de desmaiar, vejo pessoas se aproximando.

Pés
Sangue
Escuro

Traidor.

*continua...

No próximo episódio:
-Apague a luz e conte-me uma história sobre a ruína de um homem, que eu te falarei sobre desejos sombrios e falsidade. Você me fala sobre suas ações , vontades e fraquezas e eu vou dizer como é o caminho a seguir. Só você sabe como o homem chegou ao fim, mas só eu sei como a história vai terminar.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Explicações

Antes de ler o texto abaixo, uma leve introdução. O Pastor é um personagem criado por mim em meados de 2006, com referências diversas, de Dirty Harry a Raymond Chandler, do cinema noir às histórias em quadrinhos. Antes de ler esse texto, é importante ler o primeiro ( O Pastor - o início) e o segundo (Dia comum) para entendimento da mitologia do personagem. No texto abaixo também cruzo referências citadas no texto Só Entretenimento, escrito por mim e do texto O Retorno, escrito brilhantemente pelo Rogério, dono da personagem Loira Suicida.
Espero que gostem bastante, já que pretendo utilizar muito os crossovers de personagens de amigos e também virão por aí muitas outras estórias do Pastor.
'Nuff Said

Calmaria

A cidade dorme tranquila. Eu não.

O vento da tempestade passada ainda sopra em minha janela. No ritmo de meus suspiros, as últimas gotas soltam-se vagarosamente das folhas das árvores lá fora, como que resistindo contra a gravidade que as puxa no sentido oposto. Eu também resisto. Tento esquecer meu destino só por um minuto. A culpa não deixa. Com Rita repousando em meu peito, passo os meus olhos pelo quarto procurando algo que não está lá.Levanto-me e vou até a janela. Lá fora vejo alguns carros passando na rua que, durante o dia, não pára e também não anda. Estranhamente, nada acontece. Geralmente, meus ouvidos já ouviram de tudo nessa hora da noite. Hoje é o silêncio de Mercury City que me incomoda.

Resolvo dar uma volta, pra passar o tempo. Quem sabe alguns dedos de conhaque e conversa jogada fora preencham um pouco do vazio que povoa a minha mente. Desço a rua Sheer em direção à Jazz Square. Atravesso-a completamente até dobrar a esquina da rua Innuendo. É lá. Num dos cantos mais escuros da cidade que fica o Brady's.

O Brady´s é o tipo do lugar ao qual você não quer ir. Sujo, mal-cuidado, mal-frequentado. Ironicamente, é o lugar onde mais me sinto à vontade. Há algumas semanas a tal Loira Suicida matou um rascunho de detetive aqui dentro. Este é o Brady's. Se está procurando uma máscara para a culpa, ou um acelerador para seu instinto de autodestruição, veio ao lugar certo. O Brady's é o ponto de encontro das almas perdidas. Ao passar pela velha porta de vidro fumê, você sente todo o tipo de influência negativa que um local pode ter.Logo da entrada, se avista um palco acanhado ao fundo, onde algumas mulheres se apresentam de vez em quando. Cantando, dançando. As mesas da frente, umas 10 ao todo, são destinadas ao pôquer ou pequenas negociatas. No centro encontra-se o bar, ladeado por banquetas onde sentam-se os bêbados, boêmios e outros inofensivos cafajestes. À direita, o já citado palco, complementado com um velho piano. À esquerda, encostadas na parede, 5 mesas com divisórias entre uma e outra, como uma espécie de cubículo. É lá que acontecem os grandes esquemas, planos e negócios escusos.

Vejo os rostos de sempre. Logo, alguns demonstram estar pouco a vontade com minha presença. Não sou mais tão bem-vindo ao bar nos últimos tempos. Os que não estão incomodados por certo sabem que meu problema não é com eles. Não ligo nem um pouco para ladrões de banco, nem quadrilhas de caipiras que saem por aí assaltando casas.
Ando calmamente até o balcão e peço meu habitual copo de conhaque. Sento-me. Uma jovem morena senta-se ao meu lado. Não me incomodo nem em olhá-la. Mas após algum tempo, percebo que ela me olha fixamente. Incomodado, faço questão de demonstrar minha desaprovação.
- Não perca seu tempo, mulher. Não há nada aqui que você iria querer, acredite.
- Você é bonito.
Confesso que não esperava a franqueza, não aqui. Isso me desconcentra um pouco. Finjo que não ouço e retorno pro meu drinque.
- Minha mãe vive me dizendo pra tomar cuidado com assassinos, mas eu não me controlo.
- E onde está o assassino - pergunto com desdém.
- Não seja dissimulado. Eu te conheço, Pastor.
Deixa eu dizer uma coisa sobre a fama. É uma merda. Cada vez mais a escória da cidade me reconhece onde eu vou, isso me deixa puto. É bem mais fácil temer o desconhecido.
- Eu não ligo pra sua péssima fama. Eu gosto - Diz, com um sorriso no rosto.
Dou um último trago no conhaque e levanto-me para evitar o papo-furado. Dirijo-me até o lado esquerdo, rumo aos fundos do bar. Passo por uma fileira de trastes encostados no balcão sujo do Brady's. Sentados na última mesa, envoltos por uma fumaça densa de charuto barato estão Sammy e Quentin.

Os dois são as únicas pessoas com as quais mantenho contato frequente. Quentin é um bookie que aceita jogos de toda parte Oeste de Mercury City. Tem uma clientela bem diversa, que aposta regularmente. Se você procura apostar, vá ao Brady's e procure por Quentin. Futebol, Cavalos, torneios clandestinos de Pôquer e Boxe. Baixo e gordo, lembra muito um quero-quero, com as pernas finas e um topete que deixa todo o conjunto mais gozado.

Sammy é o assistente de Quentin. Muito calado e observador. É a perfeita antítese do patrão. Alto e magro, com um cabelo extremamente bem alinhado, com muito gel. Carrega um semblante tristonho e por vezes sombrio, impressão que é um pouco minimizada pelo avantajado nariz que brota-lhe do centro da face. Quando me aproximo da mesa, Quentin está falando.
- ...é o que te digo, Sammy. Mulheres com o tornozelo gordinho são péssimas de cama. Mas o contrário não é o ideal, meu amigo. As de tornozelo muito fino são até muito empolgadas e tudo, porém tem pouca técnica.
Enquanto fala, Quentin balança os dois braços, muito expansivo. Na mão direita segura o indefectível charuto e na mão esquerda o surrado caderninho de anotações, no qual anota as apostas.
- o que você procura é o meio-termo. nem muito grosso, nem muito fino. O meio-termo, Sammy. Esse é o esquema.
Quentin adora discutir amenidades.
- É ou não é, Raymond?
É estranho ouvir meu nome depois de tanto tempo.
Sammy desliza sobre o banco de dois lugares grudado ao chão, deixando um espaço para eu sentar. É o que faço.
- Não tenho idéia do que você ta falando, Quentin. - desvio o assunto rapidamente - Por acaso tem alguma novidade pra mim? Alguém gastando mais do que deveria?
- O de sempre, Ray. Nada fora do comum. - Quentin parece entediado com a pergunta - Por que diabos você não dá um tempo nessa de ser herói?
- Tem algo estranho rolando, Quentin. É latente, É palpável. Tem muito peixe pequeno andando com mais poder do que deveria e poderia por aí.
Sammy mantém-se imóvel, observando. Quentin aproxima-se de mim como se esperasse mais detalhes do que eu estava a dizer. Como eu não disse mais nada, disse ele.
- Olha, se quer minha opinião, Mercury City é a maior reunião de safados por metro quadrado. Se você for ficar sofrendo por antecipação, tá ferrado. Faça como eu, vai levando. Um dia de cada vez.
Quentin dá uma baforada densa e continua com o conselho.
- Ray, depois do que você fez com o último cara, ninguém vai se meter contigo por um bom tempo.
Enquanto termina de falar, o telefone do Brady's toca e Quentin levanta-se ligeiro para atender. Sammy permanece do mesmo jeito que estava no início da conversa. Consigo perceber o desconforto que sente com minha presença. Não o culpo. Enquanto Sammy toma uma golada de seu refrigerante de laranja, Quentin volta, animado.
- Simbora, Sammy. Arrumamos uma bolada na Bohemian Street. O velho McGurgeon abriu a carteira novamente.
Levanto-me para permitir que Sammy saia de seu lugar e retorno ao lugar de origem. Antes de sair, Quentin diz.
- Relaxa essa noite, Ray. Seu rebanho está na sombra por hoje. Até o Pastor tem direito à descanso.
Com um tapinha amigável no meu ombro, Quentin se afasta. Olho para trás e percebo a morena que continua me olhando fixamente do balcão. Remoendo os acontecimentos das últimas semanas, me deixo levar pelas últimas palavras de Quentin. Levanto-me calmamente, ajeito meu chapéu Panamá na cabeça e ando em direção à porta. No caminho, pego a morena pelo braço e sussurro em seu ouvido.
- Se é sua vontade, será minha essa noite e só essa noite. Sem perguntas ou maiores intimidades. De acordo?
Ela levanta-se sem pestanejar. Joga uns trocados sobre o balcão e gruda em meu braço como se fosse uma criança com medo de perder a mãe. Caminhamos juntos pelo bar rumo à rua. E depois rumo à qualquer Motel barato.
O vento já não sopra mais, as estrelas iluminam a noite de Lua nova. Nenhum carro à rua. Vou aproveitar a noite de calmaria. Deus sabe a tormenta que me aguarda.

A cidade dorme tranquila. A morena em meus braços também.

continua...

Dia comum

A maldade existe. Infame. Injusta. A maldade persiste.

Naquele canto sujo da cidade, àquela hora da madrugada, é claro que não poderia acontecer algo bom. As más intenções são como o vapor que sobe das tampas dos bueiros quando a noite esfria.

Ela caminha. A passada ilustra o medo. Apressada. E ela caminha. Rumo incerto à destino algum..

A uma esquina dali, ele observa toda a ação. Lacaio imundo. Mente perturbada pelas drogas. Disposição para matar. Disposição para morrer.

Ela se aproxima cada vez mais.

Ele aguarda. Ansioso pelo bote.

10. 5 metros. Ele já está em posição de ataque. Que tal se eu me juntar a brincadeira?

Com um salto, deixo o telhado sobre o qual eu me esgueirava. Surpreendido, o meliante deixa cair sua arma. A moça foge, assustada. Com um soco, o derrubo para trás, perto o suficiente para que ele role e alcance sua arma. Com agilidade surpreendente, ele faz um giro e mira em minha cabeça. Displicente, faz pouco caso da situação:

- É você, não? – diz com indício de sorriso no rosto

- Depende.

- Você, é aquele cara que ta assustando todo mundo por aí. O Fantasma. É você não é não?

- Se você quer acreditar que sim. Mas Fantasma já tem dono, eu prefiro Pastor.

- Pastor? Cara, isso ai não mete medo em ninguém. – A cada palavra ele dá um passo em minha direção. Um erro primário. Com um movimento rápido eu consigo dar um chute em seu pulso e ele solta a arma novamente. Dessa vez eu me adianto, pisando em cima do revólver. Abaixo-me calmamente para analisá-lo. É uma Ruger Mark I. Uma arma bem decente para um ladrãozinho imundo como esse. É óbvio que alguém mais poderoso está municiando a ralé da cidade. E é óbvio também que eu estou começando a incomodar. Ótimo.

Ao invés de estar apavorado, o vagabundo sorria ainda mais, como que inebriado de adrenalina. A mente insana funciona de maneira assustadora.

- HA HA HA HA HA HA HÁ! O Pastor me pegou! Que medo! E agora, você vai ler um trecho da Bíblia e me levar para o inferno?

- Pessoalmente não. Mas eu conheço um atalho. – Lentamente puxo Rita, minha Smith & Wesson 44, do coldre. Mas antes que pudesse fazer o disparo, o ladrão saca uma arma escondida na meia e dispara algumas vezes. Sinceramente, ainda não me acostumei com os tiros. As balas não me perfuram, óbvio, mas mesmo assim eu sinto uma dor irritante, algo parecido com a picada de uma vespa, só que mais forte. E isso me irrita bastante.

Ao ver os projéteis caindo após baterem em meu corpo, finalmente ele enxerga a realidade. E a realidade assusta. Tremendo, larga a arma e cai de joelhos.

- Meu Deus! – Exclama

- Tente de novo.

O estampido de Rita cala qualquer tipo de lamento por parte do ladrão. Seu caso está encerrado. Sorte dele. O meu está longe de ter fim.

A esperança existe. Incompreensível. Inexplicável. A esperança persiste.